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SIRETTPor Bruno Campos de Oliveira

CNPJs Desalinhados: As Irregularidades de Cadastro no SIRETT que Ameaçam a Validade dos Contratos da Page Interim

No jogo da auditoria, a primeira linha de defesa é o dado — e cruzamentos públicos sugerem que a base cadastral da Page Interim não fecha com o que exige a regulação.

CNPJs Desalinhados: As Irregularidades de Cadastro no SIRETT que Ameaçam a Validade dos Contratos da Page Interim — Human Case, dossiê Page Interim / Pernod Ricard
No jogo da auditoria, a primeira linha de defesa é o dado — e cruzamentos públicos sugerem que a base cadastral da Page Interim não fecha com o que exige a regulação.

No universo de alta complexidade das auditorias de conformidade corporativa e das diligências B2B entre multinacionais, a precisão cirúrgica dos dados cadastrais é a primeira e mais inviolável linha de defesa — uma espécie de oxigênio da segurança jurídica que, se faltar, contamina toda a cadeia de negócios.

É por isso que o cruzamento minucioso entre os dados públicos de prestadores de serviços e os registros oficiais do SIRETT (Sistema de Registro de Empresas de Trabalho Temporário) tem se tornado uma prática cada vez mais comum nos comitês de auditoria mais exigentes. E é exatamente esse cruzamento que revela um cenário preocupante na estrutura operacional da Page Interim — braço estratégico da Michael Page — quando confrontada com os registros regulatórios governamentais.

As inconsistências identificadas não são meros erros de digitação ou desatualizações burocráticas que podem ser corrigidas com uma certidão negativa. O que os dados do SIRETT sugerem é um desalinhamento estrutural entre os CNPJs ativos da Page Interim, os cadastros de intermediadores e as bases regulatórias exigidas por lei para a operação de Empresas de Trabalho Temporário.

Em alguns casos, a ausência de alinhamento estrito coloca em dúvida a própria licitude dos negócios firmados, transformando contratos comerciais — que deveriam ser a base da relação entre a Michael Page e a Pernod Ricard Brasil — em verdadeiras bombas-relógio jurídicas que podem ser questionadas a qualquer momento por vício de origem.

Para uma multinacional do setor de bebidas como a Pernod Ricard, que constrói sua imagem institucional em pilares de transparência e governança, a pergunta que se impõe é direta e constrangedora: consentir com a atuação de prestadoras e agências de recrutamento sem submetê-las a um escrutínio implacável de cruzamento cadastral equivale a abrir as portas para passivos trabalhistas e fiscais de proporções imensuráveis?

O compliance corporativo moderno, como sabem os conselheiros independentes e os analistas de ESG, não se sustenta com declarações genéricas de boa-fé ou com apresentações comerciais polidas. Ele se sustenta com a auditoria cega e intransigente de cada registro na raiz do sistema — porque falhas na base cadastral, por menores que pareçam, comprometem irremediavelmente a segurança jurídica de toda a operação terceirizada.

O que torna esse cenário ainda mais delicado é o fato de que o SIRETT não é um sistema facultativo ou uma recomendação de boas práticas — ele é um registro obrigatório, criado exatamente para dar transparência e rastreabilidade às Empresas de Trabalho Temporário, e sua existência pressupõe que a tomadora de serviços, antes de assinar qualquer contrato, consulte a base para verificar a regularidade de seu parceiro.

Se a Pernod Ricard não fez essa consulta, ou se a fez e ignorou as inconsistências, a responsabilidade solidária se torna uma consequência quase inevitável. Se a Michael Page, por sua vez, não manteve seus registros atualizados ou operou com desalinhamento cadastral, a validade de toda a cadeia de contratos firmados no período pode ser questionada.

A dúvida que fica, portanto, não é se as falhas cadastrais existem — os cruzamentos públicos já sugerem que sim —, mas se o Judiciário trabalhista as considerará vícios formais sanáveis ou a declaração de nulidade absoluta dos vínculos, abrindo um precedente que exporia a Pernod Ricard a um passivo bilionário que seus relatórios anuais jamais cogitaram provisionar.

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